quinta-feira, 18 de abril de 2013

Estamos retrocedendo????

"Quando você estimula uma mulher a ter os mesmos direitos do homem, ela querendo trabalhar, a sua parcela como mãe começa a ficar anulada, e, para que ela não seja mãe, só há uma maneira que se conhece: ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo, e que vão gozar dos prazeres de uma união e não vão ter filhos. Eu vejo de uma maneira sutil atingir a família; quando você estimula as pessoas a liberarem os seus instintos e conviverem com pessoas do mesmo sexo, você destrói a família, cria-se uma sociedade onde só tem homossexuais, você vê que essa sociedade tende a desaparecer porque ela não gera filhos¹" (Marco Feliciano em jun-2012)


Fico estarrecida em ler nas redes sociais discursos desse tipo,ainda mais quando são palavras proferidas por um dos líderes religiosos que fazem parte da bancada evangélica (que vem crescendo e se espalhando como erva daninha), e atual presidente da comissão dos direitos humanos da câmara de deputados do Brasil, e assim como ele, existem muitos outros que deturpam toda uma luta por direitos de igualdade social em relação a gênero e sexualidade. Já é um grande problema um homem público declarar esse tipo de opinião, mas o pior  é que ele nem sabe do que está falando e arrasta multidões que concordam com suas palavras distorcidas, confusas e sem nenhum fundamento.

Desde quando uma mãe que está no mercado de trabalho ou busca sua realização profissional deixa "sua parcela como mãe a ficar isolada"? Até onde eu sei - por experiência própria - essa mulher mãe e trabalhadora é aquela que se desdobra para atender as exigências profissionais, pessoais e familiares, já  que geralmente são os homens que abandonam sua parcela de paternidade.

Que discurso é esse de que se a mulher não tem filhos "ou ela não se casa, ou mantém um casamento, um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo"?? Será que ele não sabe que existem métodos contraceptivos e que existem mulheres que não pretendem ter filhos apesar de serem heterossexuais e, muitas vezes, viverem em um relacionamento estável? Ou que, existem milhares de mulheres homossexuais, que mesmo não podendo gerar filhos da parceira, podem fazê-lo através de inseminação artificial? Ou, ainda, que adoção também é um meio de se construir uma família, sendo hétero ou homossexual?

Em um determinado ponto da fala, o senhor presidente da comissão afirma que se a mulher quer buscar sua realização e não quer ter filhos é porque ela está sendo incentivada a ser homossexual, porque "quando você estimula as pessoas a liberarem os seus instintos e conviverem com pessoas do mesmo sexo, você destrói a família, cria-se uma sociedade onde só tem homossexuais, você vê que essa sociedade tende a desaparecer porque ela não gera filhos", não sabia que essa era a definição de homossexualidade feminina. E os instintos a que ele se refere é a busca da mulher pelo prazer sexual?

 Estamos retrocedendo a uma cultura religiosa de que o sexo é apenas meio de procriação, cultura essa  que desconsiderava a mulher em todos os seus aspectos.  E, por favor, avisem ao excelentíssimo Sr. que esse discurso é de Santo Agostinho, Padre do séc.V (354-430), e que muitos outros teólogos como João Calvino e Martinho Lutero, que lutaram pela reforma protestante, já trazem um discurso um pouco mais moderno em relação a sexualidade. Quanto à questão das lutas dos direitos dos casais homoafetivos e dos  grupos do movimento LGBT, só tenho a dizer que essa luta não é religiosa, e sim social.

Portanto, é preciso afirmar: lugar de evangélico é na igreja lutando pelo bem estar de seus membros e  servindo à sua comunidade, já a política precisa ser retomada por estudiosos e pesquisadores, pessoas que saibam do que estão falando.

Abço a tod@s
Por Priscila Messias
Pós-Graduada em Gênero e Sexualidade - UERJ
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¹http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/265-generos-em-noticias/17660-marco-feliciano-diz-que-reivindicacoes-feministas-estimulam-o-homossexualismo

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