sábado, 2 de março de 2019

Corpo de Mulher

Esse corpo é meu!
Não o toque.
Não o sangre.
Não o profane.

Eu escolho
Se quero que o toque,
se quero gerar,
se quero amar.

Solte o meu corpo.
Não me toque,
Não me sangre,
Não me viole.

Sou menina,
Sou jovem,
Sou idosa,
Sou mulher.

Só quero ir e vir,
só quero com a vida seguir...
Não me toque!
Não me mate!
Não me estupre!

Só quero poder sonhar,
Só quero poder amar,
Só quero poder viver,
Só quero não precisar
Ter medo de ser mulher.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

José por Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Mulheres em Luta!

Estamos em luta!
Nossa dor ficou exposta, nossos medos foram revelados.
Fomos às ruas e gritamos #elenão. Nunca gritamos tão alto!
Ninguém jamais poderá dizer que não fizemos nada.

Tememos a violência, o fascismo e a repressão.
São medos reais, que conhecemos há muito tempo.
São dores reais, que sentimos em nossos corpos e almas.
Todos nós estamos à mercê do algoz, e o enfrentamos por nós e por ti.

Noutros tempos esse ódio não entraria em nossas casas,
No tempo que armas e violência eram discriminadas pelos nossos pais.
Na época que igrejas e mosteiros pregavam o amor e eram eles os perseguidos.
Mas agora a ganância e a mentira entraram nos templos, e somos nós que sofremos essa perseguição sem fim e com fim.

É desolador acordar e ver que esse sentimento não advém de um pesadelo,
É duro perceber que uma nação pretende higienizar seu espaço,
Com o critério de excluir quem luta pela igualdade e respeito à diversidade.
Se você não se enquadra então a você só resta a dor, O medo, a morte!

Eu acredito na força do feminino,
Eu acredito na força do coletivo,
Eu acredito nas preces das mães que amam e acolhem,
Eu acredito no amor!

Um abraço a tod@s e força para nós que entendemos que a dor do outro também é a nossa.
Por Priscila Messias.

domingo, 16 de setembro de 2018

O que quero para o futuro

Eu não quero muito!

Queria apenas levar uma vida simples e feliz. Queria poder proporcionar aos meus filhos uma vida digna com direito ao lazer, à cultura e uma educação de qualidade para que, assim, tenham condições de se tornarem cidadãos conscientes de seus direitos e deveres nessa sociedade, e, além disso, queria poder assegurar para mim e minha família segurança, respeito e paz.

Eu gostaria que houvesse uma forma de colocar todos que amo numa espécie de campo de proteção, mas tenho consciência de que poderemos viver alguma mazela nesse mundo, não estamos privados do sofrimento. Não posso proteger minha família e amigos, nem ao menos a mim mesma, das dores que as doenças, os preconceitos ou a intolerância podem causar.

Mas algo eu posso fazer: posso lutar por um mundo melhor pra mim e pra todo mundo. Posso levantar a minha voz, arregaçar as mangas e mostrar para as pessoas que, juntos, temos a força de transformar muitas histórias, e assim tornar o que hoje é sombrio em luz.

Tenho plena consciência de que não posso fazer isso sozinha, na verdade, espero encontrar outras pessoas que, assim como eu, acreditam no poder do coletivo e que lutam, de alguma forma pela justiça e igualdade de direitos para todos.

Se você é como eu, vamos nos unir, podemos nos dar as mãos e assim formar uma corrente forte para que pelo menos meus netos possam vivenciar uma sociedade mais justa e igualitária.


Um abraço a tod@s
Por Priscila Messias

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A sua dor também é minha

Eu sei o quanto seu coração está sofrendo,
Como parece que você está num poço sem fim.
Sei como é se arrepender por ter acreditado,
Como é olhar para trás e se achar idiota e boba.

Essa dor que você sente parece que vai te matar,
É uma dor avassaladora, mas ela vai passar.
Chore o que for preciso chorar, sofra o que for preciso sofrer
Mas não desista nunca de você!

Não se importe com as palavras, muitas irão te machucar.
Pense com lucidez, olhe para frente e acredite em você.
Independente da decisão que tomar, seja ela qual for,
Que seja aquela que te deixará novamente feliz.

Amores vêm e vão. Histórias têm início, meio e fim.
Mas seus sonhos, desejos e anseios não podem esmorecer.
Quando der, levante-se, seque as lágrimas e siga,
Siga para frente, para o desconhecido, para o surpreendente novo.

Sua dor também já foi minha, essas lágrimas eu também já chorei.
Não se esconda em sua solidão, é hora de afeição.
Meus ouvidos estão prontos para te ouvir
e minhas mãos estarão estendidas para te ajudar, se precisar!

Viva a irmandade feminina, viva a sororidade
Um abraço carinhoso a tod@s e meu sincero desejo que tudo fique bem.
Por Priscila Messias

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Na simplicidade encontramos a felicidade!


Muitas vezes ficamos esperando que coisas grandes e extraordinárias aconteçam e esquecemos de perceber o que de fato importa: estar com alguém especial e apreciar um eclipse lunar, plantar uma flor e vê-la florir, receber o carinho de um animal de estimação. Coisas simples que muitos gostariam de vivenciar mas, que por algum motivo, não podem. As pequenas coisas precisam ser valorizadas.

Devemos encontrar e viver nossas paixões, pois são elas que nos impulsionam a querer viver a vida com plenitude. Precisamos sempre nos reinventar e nos conectar com nossa essência, pois é o que somos.

É preciso aprender a amar sem medidas, deixar de lado mágoas que nos afastam dos que deveriam estar próximos, e viver o dia de hoje como se fosse o último, porque pode não haver o amanhã para nós. O amanhã não nos é garantido, só temos a certeza do hoje, então não podemos permitir que nossos últimos momentos estejam envoltos a sentimentos ruins. Precisamos buscar nossa felicidade agora!

Aprendamos com as crianças: descalce seus pés da vaidade, brinque na chuva, aprecie as coisas simples e encontre sua felicidade.

Abraço a tod@s
Por Priscila Messias

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Não deixe o medo te paralisar!

O mundo pode duvidar de você! Menos você... (Beatriz Nascimento)

Fui convidada a falar para um grupo de mulheres que estão retornando ou entrando no mercado de trabalho já na vida madura. Mulheres que foram instruídas a dedicar seus corpos, mentes e sonhos em prol de outros, como se para elas essa fosse a única forma de realização pessoal, mas que hoje se sentem arrependidas de não terem construído uma carreira profissional ou uma vida financeira independente e estão buscando, mesmo que tardiamente, essas conquistas.

Ainda existem mulheres que acreditam piamente que esse é o papel do feminino: de subserviência e submissão, tendo que viver à sombra, sonhando os sonhos e se realizando com as conquistas dos outros. E, numa regra quase que geral, quando percebem que seu sacrifício e dedicação não foram reconhecidos, muitas se tornam frustradas e tristes, pois fizeram muito para os outros e pouco para si mesmas. Em contrapartida existem aquelas que usam essa dor como alavanca para dar uma guinada e recomeçar sua história, mulheres corajosas que não sabem a força que têm e necessitam de motivação para dar início às suas conquistas pessoais e profissionais.

Imaginem uma mulher que passou parte da vida adulta sem (muitas vezes) tomar decisões, sem criar expectativas para si mesma, ou dirigir sua própria vida tendo que enfrentar esse mundo competitivo e seletivo. Ao contrário do que muitos pensam e afirmam, não é fácil recomeçar uma vida sozinha, sem o apoio e, principalmente, sem uma segurança financeira.

Essa nova perspectiva gera muito medo, algo que faz parte da formação do ser humano, e que é, inclusive, muito importante para que fujamos dos perigos. Mas, ao mesmo tempo que o medo deve existir, ele pode ser extremamente negativo se deixarmos que tome todo o espaço de nossa vida, podemos ficar paralisados e impedidos de dar passos importantes e alcançar sonhos e metas. É normal nos sentirmos inseguros frente ao desconhecido, mas não estagnados. Mesmo que tomemos algumas decisões erradas ou que nossas tentativas sejam frustradas, não podemos deixar de insistir, é preciso acreditar e seguir!

Essa experiência me fez refletir sobre como a vida nos oportuniza sempre recomeçar, mas, antes, precisamos, vencer nossos medos para não ficarmos feito estátuas vendo nossas possibilidades passarem a nossa frente sem que possamos agarrá-las. Aquelas mulheres disseram que foi muito importante o que eu fui dizer a elas, que minhas palavras as encorajaram, mas mal sabem elas que a determinação e coragem que elas me passaram foram o que me fez ganhar o dia e perceber como é importante vencer os medos e correr atrás de minhas realizações.

Obrigada!
Por Priscila Messias

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Mulher: Fuja!

Sei que nunca imaginamos que o cara que amamos, aquele com o qual dividimos nossos sonhos, nossa vida, possa ser capaz de nos fazer mal. Somos condicionadas a buscar e acreditar na história do "príncipe encantado", aquele que nos protegerá dos perigos, e acaba que confundimos toda atitude, mesmo que abusiva, como forma de demonstração de cuidado e amor, e nesse engano muitas vezes o que a princípio parecia um sonho acaba se tornando um pesadelo.

Temos tido notícias, com mais frequência de que gostaríamos, de mulheres que foram vítimas de seus parceiros, que foram agredidas ou mortas por homens que um dia lhes fizeram juras de amor e compartilhou com elas sua história. Mulheres vítimas da violência do machismo.

Eu vivi um relacionamento abusivo, sei bem o que é ser subjugada, humilhada, ter seu direito de ir e vir tomado, perder oportunidades de crescimento pessoal, profissional e intelectual. Sei o que é procurar a ajuda de alguém e ouvir frases como: "casamento é isso", "homem é assim mesmo", "ore a Deus e espere que um dia essa prova vai passar", "se ele faz isso é porque você permite", "pense em seus filhos, como vão crescer sem um pai, uma família?", e me sentir envergonhada e culpada por estar naquele relacionamento. Sei também como é se sentir pequena demais para reagir a qualquer investida ou incapaz de sair dessa relação de poder sobre meu corpo, minhas escolhas e vontades. Mas, mediante a tudo isso, hoje posso dizer com propriedade que é possível sair desse aprisionamento, dessa relação que te degrada e te destrói.

Relacionamentos abusivos facilmente partem para violentos, e muitas irmãs por conta do envolvimento afetivo, por vergonha, por viver numa ilusão de melhora ou pela dependência financeira, acabam estendendo seu sofrimento e se colocando em riscos cada vez maiores. Nada é mais importante que sua integridade e sua vida. Procure conversar com pessoas sensatas, na maior parte das vezes nossos pais e amigos mais próximos nos alertam sobre o abuso, precisamos ouvir e nos proteger. No primeiro sinal de que está em um relacionamento abusivo (controle, proibições, ameaças, ciúmes, agressões verbais, etc): FUJA!

Mas, se você já está num relacionamento como esse trago algumas SUGESTÕES que podem vir te ajudar até que você consiga se livrar dessa opressão:

1. Se sofrer qualquer tipo de agressão (psicológica, emocional, patrimonial ou física) NÃO TENHA VERGONHA, procure alguém ou algum grupo de assistência e compartilhe seu sofrimento - DENUNCIE;

2. Em vista de uma agressão física, PROCURE SE AFASTAR de seu algoz, se recolha em um cômodo, se possível tranque a porta e não saia de lá até que tenha a certeza de que não corre mais riscos;

3. Em caso de violência verbal, NÃO TENTE GANHAR NO GRITO, aquiete seu orgulho nesse momento e não responda. Não queira debater, ele não está aberto ao diálogo;

4. Em situação de vulnerabilidade: CORRA! Se afaste do perigo;

5. Se, após o seu afastamento, o indivíduo propor um encontro para conversarem: NÃO VÁ! Nem a companhia de seus familiares pode garantir sua integridade física.

Saia desse relacionamento, pode parecer impossível, mas VOCÊ É CAPAZ de se reerguer emocional, psicológica e financeiramente. E lembre-se sempre: A CULPA NÃO É SUA! (NADA justifica uma atitude de dominação.)

Sei que mesmo com todo esse cuidado, ainda estamos sujeitas à qualquer tipo de violência, porque o machismo em nossa estrutura social é solidificado, mascarado e justificado. Precisamos nos unir, falar sobre isso, educar noss@s filh@s para que entendam que DOMINAÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE AMOR!

Amigas, se protejam e fujam....por favor, fujam!

quinta-feira, 15 de março de 2018

Não nos calaremos!

Ela não defendia bandido,
Ela usava sua voz para defender os iguais
Negros, pobres, mulheres e homossexuais.
O negro não é bandido,
O pobre não é vagabundo,
A mulher não é vadia,
O homossexual não tem que morrer.

Ela não defendia bandido.
Buscava a justiça restaurativa,
aquela que trata o homem como homem,
aquela que não transforma homens em animais selvagens.

Ela falava do direito a vida.
Direito a escolher se quer gerar uma vida.
Direito de ter uma vida com dignidade.
Direito de voltar pra casa com vida.

Ela defendia o direito do pobre:
à educação, esporte, lazer e cultura
Ela falava de dignidade,
Ela falava de oportunidades.

Mataram uma mulher que lutava,
Lutava por mim e por você.
Tiraram-lhe a vida,
Mas sua voz ecoou e o mundo todo escutou.

Por Marielle, por Maria, Sandra e muitas outras
Que morreram porque incomodavam,
Que morreram porque falavam,
Que morreram em combate para que muitas outras pudessem viver.

Por Priscila Messias

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

50 tons - uma história roubada de nós

Eu e mais 70 milhões de mulheres no mundo todo devoramos os três livros da série 50 tons de E.L.James, confesso que quando fui ao cinema assistir o primeiro filme da trilogia me decepcionei bastante - como estou acostumada aos filmes brasileiros regados a peitos e pênis a mostra, e cenas de sexo que não me parecem nem um pouco cenográficas - “50 Tons de Cinza” não me impactou nem um pouco por demonstrar nitidamente a timidez e falta de sintonia entre os atores e isso me tirou a vontade de ver os filmes seguintes para não perder a magia de sensualidade dos livros.

Mas, por total curiosidade e bem após a estreia, assisti o segundo filme, “50 Tons mais Escuros”, e apesar de ter achado o casal um pouco menos desconcertados e as cenas apresentarem uma proposta mais quente notei que apenas Anastasia Steele aparecia nua e em destaque nas cenas mais sensuais, aí me perguntei se o filme, ao contrário do livro, não estaria sendo contado por olhos masculinos, e Bingo! O segundo e o terceiro filme não foram mais dirigidos ou tiveram roteiros escritos por mulheres e sim por homens, o diretor agora é James Foley e o roteirista é o marido da escritora, Niall Leonard.

Segundo sites sobre filmes, a diretora Sam Taylor-Johnson e a roteirista Kelly Marcel se indispuseram com a autora do best-seller e desistiram da sequência. Até entendo que esse tipo de treta aconteça na indústria do cinema, mas quem disse à Universal que homens seriam capazes de reproduzir uma história que foi contada por uma mulher? Não é possível que não existiram diretoras e roteiristas mulheres com competência para dar continuidade aos filmes. Não sei se estou dizendo asneiras ou se estou sendo insana, mas precisava compartilhar que não gostei e me senti violada quando percebi que a historia já não estava mais sendo narrada por Anastasia, mas por Christian.

O livro havia me envolvido de uma forma que nenhuma outra literatura havia feito, e quando vi o segundo filme me senti traída por terem roubado a áurea feminina da história e transformado toda a saga num conto erótico masculino que não necessita de enredo, só de peitos e bundas femininas à mostra. Já estou cansada de ver nossas histórias sendo contadas por homens que acham que sabem sobre nossos desejos e anseios. Fica registrada aqui minha indignação sobre o fato e que pensemos seriamente sobre o assunto.

Um abraço a tod@s,
Por Priscila Messias